Matheus Fernando – Mathenovê, entrevista Janayna Bomfim, artista visual de Caruaru-PE, sobre a exposição “Perto do Coração Selvagem”. Veja aqui a entrevista completa abaixo.
Janayna Bomfim.
Cientista Social. Psicóloga. Especialista em Saúde Mental e Intervenção Psicossocial. Doutoranda em Psicologia.
Especialista em Psicanálise e Gênero. Psicanalista praticante e em constante formação pela (EBP – Seção NE).Psicóloga clínica. Docente e Supervisora de estágio no curso de Psicologia da Uninassau. Experiência em Saúde Pública. Pesquisadora sobre mulheres trans. Artesã.
Descreva brevemente como foi o processo criativo da exposição.
As peças estão sendo criadas desde o ano de 2021, com um olhar entre arte e psicanálise. O nome da exposição se dá pelo que as esculturas representam e a identidade do local em que está acontecendo – Clandestina, uma casa de psicanálise, literatura e outras artes. O nome da exposição foi escolhido pela curadoria de Ayanne Sobral e Stenio Marcos.
O processo criativo emergiu como uma tentativa de dar forma ao indizível — aquilo que escapa ao simbólico, mas insiste em retornar no corpo. As peças nascem da escuta do desejo, não o desejo como falta a ser preenchida, mas como motor de criação, como pulsão.
A relação que podemos fazer com a obra “Perto do Coração Selvagem” – o atravessamento por uma identificação com a experiência de Joana: um sujeito em construção, em ruptura com o Outro, tateando os contornos do próprio eu. A matéria (barro, textura, dureza) tornou-se um campo de inscrição desse percurso subjetivo. O coração não como um órgão, mas como signo do gozo, daquilo que pulsa fora da norma.
O que você deseja transmitir com a exposição Perto do Coração Selvagem?
Quero provocar no espectador um deslocamento — da visão para o sentir, da superfície para o abismo. A exposição é um convite ao encontro com o Real, esse ponto onde a linguagem falha e o sujeito se vê diante do seu próprio desejo, cru e sem mediação. Ao evocar o “coração selvagem”, aponto para o que em nós escapa à domesticação, à moral e à forma. É um retorno ao ponto de origem do sujeito: uma existência ainda não totalmente capturada pelo significante.
Dentro de cada pessoa há um território íntimo, indomável e pulsional — um “coração selvagem” que pulsa independente das normas e expectativas sociais. A exposição convida à introspecção, ao mergulho no próprio sentir, assim como faz Clarice em sua obra. É uma provocação para que o público se reconecte com suas emoções mais autênticas, mesmo aquelas que são contraditórias ou desconfortáveis.
Qual a relação de sua arte com Clarice Lispector?
Clarice escreve no entre — entre o dizer e o silêncio, entre o sujeito e o mundo. Minha arte busca esse mesmo intervalo. Assim como a linguagem clariceana é atravessada pela falta estrutural do sujeito — o vazio que funda o desejo —, minhas esculturas tentam corporificar essa ausência. O coração é o lugar onde o gozo se escreve sem palavras. Clarice, como Lacan, nos ensina que o sujeito se constitui na linguagem, mas é o furo que o move.
Veja algumas das artes de Janayna que foi exposta na Casa Clandestina abaixo.







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